CONVERSA COM UM MACHISTA-LENINISTA
entrevista de Helena Vaz da Silva a Camilo José Cela
Já me tinha acontecido uma vez. Mas eu era então muito mais nova (inexperiente) e o entrevistado muito mais velho (alquebrado). Eu perguntava alhos e ele respondia bugalhos. Foi "sir" Anthony Eden uma vez em casa dos duques de Palmela em Cascais. Eu a querer saber do Canal do Suez, ele a responder da baía de Cascais, eu a perguntar pelos alemães no fim da guerra, ele a contar dos portugueses tão amáveis, eu a querer entrevistar, ele apenas a sorrir para o fotógrafo. Acabei por engolir os meus alhos e fotografar os bugalhos dele. E no fim senti que tinha aprendido mais um bocado.
Agora foi mesmo - em technicolor.
Saí para entrevistar um escritor, um dos "grandes”, com muitos "honoris causa" no curriculum. Embora lhe conhecesse a prosa pícara, tinha-lhe ouvido o solene verbo na Gulbenkian. Preparara três perguntinhas honestas, próprias para escritor de prestígio, de passagem.
"Eu não falo de literatura, faço-a. Os políticos é que falam de política em vez de fazê-la." Atirou-me, pletórico, o homem que se me apresentou logo como um machista-leninista.
Do machista tive a minha conta.
A história de Valle-Inclan, para pôr no tom: Clara Campomor, uma deputada feminista do tempo da República, pergunta a Valle-Inclan: "D. Ramon, o senhor é feminista?". — "Feminista, não respondeu ele, "sou mulherista".
Uma resposta machista, mesmo.
"Para vocês, mulheres, é uma sorte que ainda restem alguns machistas. Como para nós, homens, que ainda haja algumas mulheres”. Pensativo: "Embora a mulher não seja o único animal amoroso possível. A cabra também dá bom resultado. Mas há um problema de comunicação".
Primeira tentativa minha para alterar o registo. Com quem comunica usted mais facilmente?
'"Melhor com uma mulher do que com uma cabra."
E mais?
"Com mais ninguém. Podia responder-lhe que era com Deus, mas a verdade é que as mulheres sempre me deram mais t... do que Deus."
Quanto as suecas que, segundo diz, foram uma das razões que o fizeram ficar-se por Palma de Maiorca - para onde foi em 1955 em exílio semiforçado - diz que mudou de ideias. "Não é que eu não entenda as coisas que elas dizem, o pior é que não entendo por que as dizem."
Debato-me comigo. Deixar correr e ir lendo a evidente sabedoria que perpassa por baixo de toda esta conversa? Ou fazer, como o EXPRESSO espera de mim, uma entrevista segundo a receita, com uns pós de politica e um tom cultural que baste?
Faço a segunda tentativa. É galego. Como vive essa sua ascendência? Como se vive na Galiza o problema do autonomismo?
"Ui, isso do autonomismo levava-nos longe demais. Creio que é preciso uma dosificação do autonomismo. E é preciso distinguir entre os diversos autonomismos. Eu, por exemplo, sou galego até ao fundo, interessa-me fomentar a cultura galega por toda Galiza. Mas não estou certo de não ser melhor para as crianças galegas aprenderem o castelhano nas escolas. Galego aprendem elas em casa e na rua. E poderiam no futuro encontrar-se numa condição de inferioridade.
Mas eu não sofro do mal hispânico e lusitano da improvisação. Vale-me a minha costela inglesa. Por isso recuso improvisar sobre o assunto desta importância"
Mas é sobre assuntos vitais que se pode improvisar. Como a morte, o amor. Então por que improvisou sobre as mulheres?
Não é menos vital.
"Oh que presunção. E feminista a sério..."
E conta a história de uma jornalista que, além de feminista, se apresentou como comunista e lhe pediu uma entrevista.
Ela era muito bonita, deram-se os dois muito bem e, quando "chegou a hora da verdade", ele atira-lhe com esta: "agora ou gritas arriba Espanha ou eu saio”.
Iam correndo as memórias de infância, os apontamentos de viagem. A história do avô inglês, John Tullock, que introduziu os caminhos de ferro em Espanha, tendo casado com a filha de Bertoriri, o italiano que os inventou. "Ele era um jovem engenheiro e fez a sua obrigação: casou com a filha do patrão. Dantes era assim, uma lógica social impecável que dava excelentes resultados. As feministas deitam tudo a perder..."
Depois a infância passada em casa do avô paterno que era condestável em Tuy. A naturalidade com que se circulava em Espanha e Portugal: as compras faziam-se metade em cada lado, o café por exemplo, era do lado de cá. "Agora não é assim. Na fronteira trataram-me como um criminoso. Entre Portugal e Espanha não devia haver essas coisas." Contou também aquela vez em que fugiu de casa com 13 anos e veio parar a Leixões. Foi ficando, encantado com a simpatia da dona da pensão que não lhe pedia dinheiro. Só mais tarde veio a saber que era o pai que, tendo-o localizado, pagava a pensão, à espera que ele se fartasse do exílio.
Tentei ainda um terceiro e desesperado assalto. O escritor e a política. As suas relações com o franquismo. Mais ou menos oposicionista, por um lado, eleito para a Academia, por outro. A ditadura e a censura parece não o terem afectado…
"A censura é má mas há que enfrentá-la. Tive livros proibidos em Espanha, fui publicá-los à Argentina. Durante vários anos tive o meu nome proibido de aparecer na Imprensa, fui forçado a partir para Palma de Maiorca... A eleição para a Academia não tem que ver com o regime. A Academia espanhola foi sempre um feudo liberal. De tal maneira que se recusaram e preencher as vagas com nomes escolhidos pelo Governo. É preciso que se saiba isso. Mas que perguntas tão chatas que você me faz. Vá perguntar essas coisas de política ao seu amigo Julian Marias".
(É verdade que, ao escolher estes dois homens para membros do Senado, don Juan Carlos mostra um inultrapassável pluralismo, honra lhe seja, pois se há coisa inconcebível é imaginar Julian Marias a dizer sequer "xiça”).
A conversa continuou, uma ininterrompida crónica de viagem através da geografia e da etnologia dos nossos, contemporâneos. Foi verdadeiramente a face escondida de uma lua cuja face visível se espraiou, para quem soube acompanhá-la, nas duas conferências da Gulbenkian.
"Vou-lhe oferecer o original da minha primeira conferência, sobre os pícaros. Apetece-me oferecer-lhe porque gosto dela. Enquanto na segunda, sobre a linguagem, há pontos que para mim permanecem obscuros, nesta estou seguro do que digo."
E eu, a folheá-la extraí ao acaso:
“El reconocimiento de la autoconsciencia a traves de otra autoconsciencia es, para Hegel, la base sustentadora de la jierquia. Ese recononimiento… es la motivacion de la existencia del picaro y la cifra que nos desvela el papel que cumple en la sociedad… El lector honrado precisa ser reconocido como senor…"
Uma dialéctica tão facilmente transponível e actual… E fui reler "Judius, moros ecristianos" e o "Pascoal Duarte" e algumas das suas "páginas nómadas" onde encontrei tudo aquilo que ele na conversa não me disse… Vi que tinha razão, nos livros está lá tudo. Que mania a nossa de fazer os escritores falar!
Assim, os deixo com o "Rol dos Cornudos" (dedicado a Charles Fourier, notem) que dão toda a "verve" culta e desbragada que encontrei neste jacto telúrico que dá pelo nome de Camilo José Cela.
Helena Vaz da Silva
| Rol de Cornudos "CORNUDO borralheiro" — ou doméstico. O que substitui a esposa no cuidar do lar e dos filhos. Trata-se de uma atitude plausível, porquanto a mulher, ocupada em intensa fornicação, carece materialmente de tempo para qualquer outra tarefa. É espécie que costuma ser apontada como exemplo pelos directores espirituais (mais pelos agostinhos que pelos dominicanos). "Cornudo curado" - aquele que recupera a saúde e diz piadas acerca dos cornos dos outros. Distingue-se do cornudo piadético na medida em que não ignora a sua situação. Éespécie que se finge tola sem o ser totalmente. "Cornudo depressivo cornudo psicossomático que costuma culpar os outros pelas suas desgraças. Não está fora da razão visto que sem pixa próxima, não há cornos individuais. É espécie que age com extrema falta de rigor lógico. "Cornudo esquerdista" – ou acrata ou anarquista. Não existe pois para alguém ser corno precisa de admitir as instituições. "Cornudo fascista" — o que arranca da leitura de Gabriel d'Annunzio e continua a falar da Abissínia.Costuma estar casado com ex-mulher-objecto e é espécie tratável se não for arrancado à distracção do seu ensimesmamento. "Cornudo kantiano" o que suporta os cornos com base na crítica do entendimento e da sensibilidade. É espécie que produz tipos baixinhos, porém sagazes e espertalhotes. "Cornudo wagneriano" — muito solene e nada dubitativo. Costuma ter cornos robustos e saudáveis. De certo modo pode-se afirmar que se trata do antípoda do cornudo descalcificado. É espécie que supõe que os espanhóis são de segunda. (excertos da trad. de Martins Garcia, edições Afrodite) |